Pense em uma lagarta voraz que ataca lavouras e causa enormes perdas para a produção agrícola do Brasil. Um problemão. Mas o mesmo organismo carrega em seu intestino a solução de um grande problema ambiental. Fungos que degradam o isopor.
Esse achado incrível foi feito por cientistas do Laboratório de Biologia Molecular da Universidade Federal de São Carlos, em colaboração com a Universidade Estadual Paulista de Rio Claro. O estudo foi publicado na Revista BMC Microbiology.
Trata-se da forma larval da mariposa Helicoverpa armigera, nativa da Oceania, Ásia, África e sul da Europa, que se espalhou para a América do Sul se tornando uma praga em plantações de soja, algodão e milho.
Quatro fungos habitam a microbiota intestinal da lagarta, todos com o potencial de decompor o isopor, um polímero derivado do petróleo, que não se degrada sozinho e se acumula na natureza, o que faz dele um poluente problemático.
Mas esses fungos têm sua atividade limitada por uma levedura do gênero Diutina que despenca quando as lagartas assumem uma dieta composta de poliestireno expandido, o nome técnico do isopor.
Em experimentos de laboratório as lagartas que comeram isopor terminaram favorecendo o florescimento de uma comunidade de quatro outras espécies de fungos a saber Aspergillus, Talaromyces, Metarhizium e Trematosphaeria, em função da retração da espécie específica de Diutina.
Metarhizium são fungos entomapatogênicos, isto é, infectam e adoecem insetos. Já Trematosphaeria, são fungos saprobios em substratos vegetais.
O estudo mostrou que a microbiota intestinal da lagarta da Helicoverpa armigera se reorganizou para lidar com a digestão do isopor. Aspergillus, Talaromyces, foram bem eficientes em degradar o isopor, enquanto duas espécies de Penicillium também descobertas apresentaram ação mais discreta.
Bioquimicamente, os fungos são exímios produtores de enzimas capazes quebrar a estrutura de polímeros complexos.
A biodegradação existe, mas encontrar os microrganismos capazes de realizar esse trabalho são outros quinhentos.
Mas existe ainda uma questão a resolver sobre os fungos do intestino das lagartas que comem isopor.
A pergunta é, a digestão feita pelos fungos do intestino das lagartas da Helicoverpa armigera é completa, isto é, o processo quebra todas as cadeias de carbono que sustentam o material ou é apenas parcial, fragmentando o polímero em micro e nanoplástico?
Obter essa resposta é crucial para validar os resultados obtidos em laboratório como solução real para o resíduo. Os estudos prosseguem segundo os pesquisadores.
Imagem da capa – Helicoverpa armigera – Foto – Jardineria On – Reprodução








