Uma descoberta desconcertante nas profundezas de uma caverna nos Estados Unidos, pode trazer novas perspectivas sobre a possibilidade da existência de vida em outras partes inusitadas do universo.
Inesperadamente, a bióloga especializada em vida microscópica em ambientes subterrâneos Hazel Barton da Universidade do Alabama, EUA e o microbiologista Lars Behrendt da Universidade de Uppsala, Suécia, encontraram micro-organismos realizando fotossíntese totalmente no escuro.
Trata-se de cianobactérias observadas nas paredes da Caverna Carlsbad, integrante de uma rede de 119 cavidades existentes entre os cânions do deserto de Chihuahua no sul do estado norte-americano do Novo México.
Barton, que também é professora de ciências geológicas, se espantou com o “verde brilhante” que observou cobrindo a superfície das paredes da caverna. “Era o verde mais iridescente que você iria ver na vida” – disse à BBC.
Em meio à “aparente” total escuridão da caverna a última coisa que ela esperava encontrar eram micro-organismos realizando fotossíntese.
As Cavernas de Carlsbad se formaram entre 4 e 11 milhões de anos atrás pela ação de ácidos diluídos que se infiltraram nas rochas calcáreas.
Na principal caverna que dá nome ao conjunto que hoje faz parte de um parque nacional, estalactites brilhantes descem do teto do Grande Salão, uma enorme câmara subterrânea com quase 1.220 metros de comprimento por 191 metros de largura.
Nesse ambiente incomum, os micro-organismos conseguem realizar fotossíntese usando mesmo tipo de luz fornecido pelas estrelas anãs vermelhas, o tipo mais comum da nossa galáxia.
A camada de micro-organismos verdes aderida às paredes da caverna, em ambientes de superfície, utilizam a luz do sol para produzir carboidratos. As cianobactérias são também conhecidas como algas verde azuladas. Mas naquele ambiente subterrâneo não havia luz visível, pelo menos do tipo perceptível aos olhos humanos.
A cor verde das plantas é proveniente da clorofila, um pigmento que reflete a luz nesse comprimento de onda específico. Porém, a clorofila capta outras faixas de luz. Ela usa a energia dessa luz absorvida para transformar dióxido de carbono e água em glicose e oxigênio.
Mas como as cianobactérias vivendo no interior da Caverna Carlsbad conseguiam realizar fotossíntese em um ambiente tão profundamente “escuro”? A explicação está no tipo de clorofila que as compõe e o comprimento de onda luminosa que ela absorve.
Na superfície da Terra, as plantas e as cianobactérias, usam clorofila do tipo “a” para realizarem a fotossíntese. Mas as cianobactérias das Cavernas Carlsbad, usam clorofilas do tipo “d” e “f” para captar um tipo de radiação luminosa na faixa do infravermelho próximo, um comprimento de onda imperceptível para o olho humano.
No interior das cavernas, o infravermelho próximo consegue atingir profundidades bem maiores do que a luz visível por causa da natureza reflexiva das rochas calcáreas para esse comprimento de onda luminosa específico, ao passo que a luz visível é totalmente absorvida, provocando a total escuridão aos olhos humanos.
Segundo Behrendt, aquelas cianobactérias “fazem fotossíntese em um ambiente totalmente protegido, onde provavelmente permaneceram intocados por 49 milhões de anos”
Mas Barton e Behrendt não foram os únicos cientistas a encontrar micróbios capazes de viver no escuro. Em 1996, Hideaki Miyashita, fazendo pós-doutorado na Nasa, uma cianobactéria marinha chamada Acaryochloris marina, que pode fazer fotossíntese usando luz visível e infravermelho próximo.
Também cientistas do Imperial College de Londres, em 2018, no Parque Nacional de Yellowstone, Estados Unidos, encontraram cianobactérias fazendo fotossíntese em condições de sombra, e no interior de certas rochas nas praias da Austrália.
Essas descobertas abrem o leque de oportunidades de possível existência de vida em planetas bem diferentes do nosso, mundos que orbitam suas estrelas a uma distância habitável, condição denominada cachinhos dourados, onde água em estado líquido pode existir, embora essas estrelas emitam luz bem mais fraca do que o nosso sol.
As cianobactérias do sistema de Cavernas Carlsbad coletam energia luminosa em comprimentos de onda de 780 nanômetros. Uma luminosidade muito fraca. Uma grande parte das estrelas de nossa galáxia, na verdade a maioria é do tipo K e M, que são as menos luminosas.
Assim, estrelas do tipo M, que são anãs vermelhas, podem abrigar planetas em condições especiais que possam ter organismos fotossintéticos, capazes de captar energia do infravermelho próximo, viabilizando assim fotossíntese mesmo em condições extremas, fator que é a base da vida como a conhecemos.








