Agricultura sustentável nos trópicos

Nos trópicos a disponibilidade e a ciclagem de nutrientes é diferente em relação às regiões temperadas e mais frias do globo.

Nas regiões de clima frio os nutrientes então disponíveis em grande escala no solo, enquanto nas regiões quentes e úmidas eles estão concentrados na biomassa sendo reciclados pelas complexas interações simbióticas e mutualísticas entre micro organismos e plantas.

Nas regiões tropicais essas adaptações biológicas que conservam e ciclam os nutrientes são frágeis em suas estruturas e tênues em suas interações.

Qualquer modificação, interferência ou remoção da estrutura biótica recicladora afeta o ciclo natural e desmonta as diversas interfaces ecossistêmicas que sustentam a ecologia destes ambientes.

Os nutrientes são rapidamente lixiviados, ou seja lavados nessas  regiões de altas temperaturas e chuvas copiosas tornando sua absorção pelas plantas inviável.

Isso quer dizer que a ciclagem dos nutrientes e o controle sistêmico das comunidades bióticas são mais físicas nas zonas setentrionais e mais biológicas nas zonas tropicais.

Os ecossistemas tropicais são altamente dependentes das íntimas relações entre o ambiente físico ou abiótico e os organismos vivos ou ambiente biótico e a simbiose entre seres autotróficos e heterotróficos envolvendo a microbiota.

Os ecossistemas tropicais de alta pluviosidade apresentam plantas com raízes emaranhadas e finas, muito absorventes. Essas raízes penetram a serrapilheira, camada de folhas e outros materiais orgânicos mortos em deposição na superfície dos solos.

Dessa forma as plantas recuperam os nutrientes de forma rápida em associação com o trabalho dos micro organismos que ajudam nas transformações das moléculas e substâncias dispondo os elementos químicos em formas possíveis de serem assimiladas pelas plantas, consistindo então na reciclagem da matéria propriamente dita.

Duas vantagens podem ser relacionadas nesse processo. A absorção rápida permite o reaproveitamento dos nutrientes antes de serem lixiviados pelas chuvas abundantes.

E o emaranhado radicular aparentemente inibe as atividades de bactérias desnitrificantes impedindo a perda do nitrogênio para a atmosfera onde ele se torna quimicamente e fisicamente inapropriado para o aproveitamento pelas plantas.

Micorrizas formadas por fungos associados mutualisticamente às raízes das plantas retêm os nutrientes na biomassa facilitando a sua recuperação pelas plantas.

Nos trópicos as plantas apresentam ainda folhas e troncos com características que dificultam a perda de água e de nutrientes e sua drenagem para o solo.

Cutícula foliar grossa, revestida de substância cerosa e fisionomia anatômica longa e pontuda além de algas e liquens associados tornam os nutrientes e a água em disponibilidade para rápida absorção nas próprias folhas.

Os líquens também fixam o nitrogênio para ser aproveitado pelas plantas de forma mais rápida e eficiente.

Além disso o revestimento grosso dos troncos e caules inibe a difusão dos nutrientes do floema, a estrutura que conduz a seiva elaborada, para a superfície dos mesmos impedindo sua perda pela lixiviação caulinar.

No Brasil os solos das grandes áreas florestais se encontram em terrenos muito antigos datados do Pré Cambriano já muito lavados e erodidos ou sobre depósitos arenosos, portanto pobres em nutrientes.

A vegetação é sustentada pelos variados mecanismos que aprisionam, retêm e reciclam os nutrientes conservando-os na própria estrutura biótica deste complexo sistema natural permitindo uma ciclagem mais direta sem passar em sua maior parte pelo solo.

Portanto, a remoção da vegetação das regiões tropicais para plantio com estratégias de agricultura baseados em monoculturas anuais e de ciclo produtivo curto são inadequadas do ponto de vista ecológico e da biologia da conservação.

A rica biodiversidade dos trópicos precisa ser preservada. Com isso as práticas e metodologias de manejo para utilização pelas atividades humanas de produção de alimentos devem ser revistas urgentemente.

É preciso conciliar a produção com a sustentabilidade ecossistêmica. Para regiões tropicais e subtropicais o estudo o desenvolvimento e a aplicação de culturas perenes com raízes bem desenvolvidas e apropriadas às interações físicas com o meio e bióticas com os micro organismos, são essenciais para uma produção mais eficaz e conservacionista.

O que se observa é que não se pode simplesmente copiar e transferir tecnologias agrícolas de regiões temperadas onde as condições naturais dos ciclos biogeoquímicos são mais elásticas para outras onde os sistemas ecológicos são diferenciados sob pena de graves alterações e impactos ambientais negativos, serem gerados dessas atividades antropogênicas muito importantes para a NOOSFERA o local das interações sociais da vida humana na terra.

Podem ocorrer com isso perdas irreparáveis da biodiversidade, depauperação dos solos, contaminação por defensivos químicos, mudanças climáticas, desertificação e extinção de espécies inclusive com grave risco para o Homo sapiens.

 Bibliografia:

ODUM , Eugene P. Ecologia, Rio de Janeiro, Guanabara Coogan, 1988. 434 p.

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Jefferson Alvarenga

Jefferson Alvarenga é criador e editor do Site Biota do Futuro. Biólogo, Pós Graduado em Gestão da Saúde Ambiental e em Imunologia e Microbiologia. Apaixonado por educação, pesquisa e por divulgação científica.

Como citar este conteúdo: ALVARENGA, Jefferson. Agricultura sustentável nos trópicos. Biota do Futuro. Betim, 10 de novembro de 2015. Disponível em: https://www.biotadofuturo.com.br/agricultura-sustentavel-nos-tropicos/. Acesso em 02/05/2026 às 10:51 h.

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