Em um evento em Belém, Pará, o atual titular do Palácio do Planalto, Lula da Silva (PT), disse em alusão a uma suposta resistência dos homens em geral em fazer o exame de toque para prevenção do câncer de próstata, que “as mulheres aprendem a tomar toque desde cedo”.
“Ele não gosta de toque. As mulheres aprendem a tomar toque desde quando é pequena. O homem não, ele é cheio de trejeito. Ele não sabe que quando tiver câncer de próstata, vão dar muito toque nele”, disse Lula.
A fala aconteceu em 28/09 quando o ocupante do executivo federal falava sobre questões de saúde comentando sobre a realização da primeira cirurgia robótica de próstata pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Norte.
Para começo de conversa é inadequado querer generalizar todos os homens com a premissa de resistência aos exames de prevenção, mesmo porque o toque retal não é o único exame que permite a detecção de moléstias relacionadas à próstata.
Uma intensa reação da sociedade aconteceu por meio das redes sociais, inclusive de médicos criticando a fala de Lula. O Deputado Federal Nikolas Ferreira (PL-MG) gravou um VÍDEO rebatendo Lula.
Segundo o Poder 360, o parlamentar em sua argumentação, citou o texto “Detecção Precoce” do Instituto Nacional de Câncer – INCA – contendo Diretrizes de Rastreamento, conforme estratégias preconizadas pela OMS – Organização Mundial da Saúde, para o diagnóstico precoce do câncer do colo do útero.
Conforme o documento, o exame “deve ser ofertado às mulheres ou qualquer pessoa com colo do útero, na faixa etária de 25 a 64 anos e que já tiveram atividade sexual”.
“Por outro lado, não devem ser incluídas no rastreamento mulheres sem história de atividade sexual ou submetidas a histerectomia total por outras razões que não o câncer do colo do útero” – afirma o INCA.
Em outra citação o deputado enumerou ainda, orientação do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas de que a 1ª consulta ginecológica seja feita dos 13 aos 15 anos.
“Essa faixa etária se refere ao rastreamento, não a toda consulta ginecológica”.
A entidade afirma que, em geral, não há necessidade de exame pélvico nessa consulta, a menos que haja sintomas ou outro problema de saúde
Através do Instagram, a Dra Michelli Flores Silva, publicou esclarecimentos técnicos sobre o assunto, baseados em documentos científicos, citando a SBP – Sociedade Brasileira de Pediatria, a FEBRASGO – Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, e, também o INCA.
A Pediatra esclareceu na sua postagem que, “toque, espéculo e swab” são exames diferentes.
O toque vaginal é uma palpação interna com os dedos. O exame especular utiliza instrumento para visualizar a vagina e o colo do útero. O swab é uma técnica destinada a coletar secreção.
“Nenhum deles é sinônimo de consulta ginecológica” – diz a médica.
Ainda segundo Michelli, “a primeira consulta não implica em exame interno.”
“O exame especular é indicação clínica”. “Na consulta de rotina, o exame especular só é considerado após o início da vida sexual”.
“Em crianças, meninas pré-púberes e adolescentes (sem vida sexual), não se faz exame especular de rotina”.
“Nas meninas pré-púberes a avaliação é principalmente externa”. “Exame genital não é sinônimo de toque vaginal”.
“Crianças não precisam se acostumar a ser tocadas. Precisam compreender o cuidado e ter seus limites respeitados” – diz a Pediatra.
Em outra postagem na sua conta no Instagram, a Dra Michelli Flores é enfática: “Não, lula. Meninas não são tocadas desde cedo. Criança precisa ser protegida”.
Outro médico que reagiu à fala de Lula foi o Dr Carlos Stéfano Hoffmann Brito, professor de ultrassonografia, doppler e intervenções ecoguiadas. Em sua conta no Instagram ele se indignou:
“Dá para acreditar que o presidente do Brasil disse isso? As mulheres aprendem a tomar toque desde pequena? Será que eu ouvi mesmo, o Presidente do Brasil falar isso? Esse é um dos maiores absurdos que eu já ouvi! Como médico, eu nunca ouvi uma asneira tão grande”.
“Não, esse vídeo não é sobre política. É sobre o perigo real de desinformação, vinda de quem tem o poder de influenciar o comportamento das pessoas” – prosseguiu o ultrassonografista.
“A medicina é clara, o exame ginecológico de toque não tem indicação de rotina em meninas sem vida sexual ativa e sem sintomas que justifiquem o ato”.
“Isso não é uma opinião pessoal minha, isso está nos protocolos médicos do Ministério da Saúde e das principais sociedades médicas do Brasil e do mundo”.
“Eu como médico reafirmo, meninas não fazem exame de toque vaginal com o ginecologista e meninas não devem ser tocadas” – complementou o Dr Carlos.
O Jornal Estado de Minas procurou a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), a qual emitiu uma nota esclarecendo que “a fala de Lula se refere a políticas de saúde pública e prevenção ao câncer”.
“Durante o discurso, ele criticou a resistência cultural de muitos homens em realizar o exame de toque retal para diagnosticar o câncer de próstata e comparou esse comportamento com a rotina de exames preventivos das mulheres que começam muito cedo” – disse a nota enviada ao veículo de imprensa de Belo Horizonte.
Imagem da capa – Pediatra – Foto – Pavel Danilyuk – Adaptação – Pexels






