O fogo como fator ecológico

O fogo é um importante fator ecológico que participa na história da formação da vegetação da maioria dos ambientes terrestres.

Entretanto as atividades antropogêncicas, ou seja, as ações dos seres humanos no planeta, têm alterado muito o seu efeito natural nos sistemas ecológicos, aumentando ou diminuindo a sua influência.

Nos dois casos, pode ocorrer que as consequências sejam extremamente danosas para o equilíbrio das comunidades bióticas, assim como acontece com outros fatores modificados pelas interferências humanas.

O fogo é um fator limitante e de controle em diversas condições naturais, mormente em regiões florestais e de campos nas zonas de clima temperado e nas regiões de clima tropical com períodos de seca prolongados.

O fogo pode ser provocado ou pode acontecer por causas naturais de variadas origens. É um elemento que tem atuado na biosfera desde tempos muito anteriores ao surgimento da espécie humana e das sociedades modernas.

Assim, o fogo deveria ser visto e estudado com a mente mais aberta como componente natural importante da dinâmica dos ecossistemas, a fim de que os seres humanos possam aprender mais sobre o seu papel regulador no meio ambiente.

Os incêndios na natureza apresentam tipos diferentes com efeitos igualmente distintos sejam eles provocados pelo homem ou originados de causas naturais.

Um tipo extremo é o incêndio de COROA, que é muito intenso, de ação demorada e difícil de ser controlado. Na maioria das vezes destrói toda a vegetação e a maioria dos organismos fica gravemente afetada, demorando muito tempo para a sua recomposição, comprometendo inclusive o solo.

Os incêndios de SUPERFÍCIE, as denominadas queimadas, por outro lado, são de um tipo que exerce um efeito seletivo que favorece os organismos mais tolerantes ao fogo ou que dele escapem com mais facilidade. O incêndio superficial é mais leve, de ação rápida e mais fácil de ser controlado.

Muitas vezes, o fogo exerce também um papel complementar na atividade decompositora feita pelas bactérias e outros organismos, particulando e facilitando a desintegração da matéria orgânica, proporcionando assim a disponibilização mais rápida dos nutrientes minerais para a sua reintegração nos diversos ciclos biogeoquímicos.

Muitas vezes, plantas leguminosas que são fixadoras de nitrogênio, nutriente importantíisimo para a comunidade vegetal como um todo, crescem com mais intensidade após uma queimada leve.

A ocorrência periódica de queimadas superficiais ajuda a evitar incêndios mais devastadores, na medida em que servem para manter em níveis mínimos a quantidade de matérial seco combustivel.

Com isso, esse tipo de fogo pode ser compreendido como instrumento de manejo altamente benéfico a favor de boas práticas conservacionistas, quando bem controlado.

Muitas regiões florestais que possuem uma fauna abundante associada, fazem parte de ecossistemas controlados pelo fogo.

O norte americano Helbert Stoddard, foi um dos primeiros a postular nos anos 30, os benefícios das queimadas “receitadas” em regiões de silvicultura para aumentar a produtividade tanto de madeira como de animais, após estudar junto com seu colega Roy Komarek, a relação do fogo com os complexos ecológicos em sua integralidade.

Na Estação de Pesquisa Tal Timbers, na Flórida, Estados Unidos, entre 1963 e 1978 foram realizadas conferências sobre a ecologia do fogo, tendo sido registradas em atas, as experiências locais bem como as inter relações entre fogo, solo, vegetação e clima observadas em todo o mundo.

O fogo serve também para impedir que plantas invasoras dominem sobre a vegetação natural protegendo a cadeia alimentar intríseca de determinada região.

Existe comprovadamente uma íntima relação entre o fogo, a vegetação de gramíneas e a incrível diversidade de grandes herbívoros e seus predadores nas savanas da África Ocidental.

As gramíneas brotam rapidamente após as partes aéreas acima do solo terem sido queimadas por que seus principais centros de reserva de energia e de crescimento ficam abaixo do solo, elevando a disponibilidade de forrageamento para diversos animais da base das teias alimentares.

Isso acontece também no Brasil sendo muito comum no cerrado principalmente mas ocorrendo também nos pampas e no pantanal.

Em muitos ecossistemas as plantas desenvolveram adaptações especiais para resistirem ao fogo sazonal como o revestimento suberoso das árvores do cerrado brasileiro.

O que tende a agravar os incêndios tornando-os altamente destrutivos é a interferência humana, por vezes desastrosa, seja por falta de cuidado, seja por ação criminosa ou manejo inadequado.

O cidadão comum, precisa ser conscientizado e educado para entender os perigos do fogo. A legislação brasileira preconiza como crime ambiental até a queima de lixo em quintais nas cidades, quanto mais aquelas queimadas provocadas em ambientes naturais.

Todos sabemos que o fogo ateado de forma criminosa e intencional se torna descontrolado é prejudicial ao meio ambiente e deve ser apurado e punido na forma da lei.

Mesmo o fogo controlado ou proveniente de causas naturais pode se tornar catastrófico e todos precisamos colaborar na medida do possível para mitigar os seus efeitos danosos.

Bibliografia

ODUM, Eugene P. Fatores limitantes e o ambiente físico. In: Ecologia. Rio de Janeiro. Guanabara Koogan S.A, 1988. p. 177-179.

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Jefferson Alvarenga

Jefferson Alvarenga é criador e editor do Site Biota do Futuro. Biólogo, Pós Graduado em Gestão da Saúde Ambiental e em Imunologia e Microbiologia. Apaixonado por educação, pesquisa e por divulgação científica.

Como citar este conteúdo: ALVARENGA, Jefferson. O fogo como fator ecológico. Biota do Futuro. Betim, 16 de outubro de 2020. Disponível em: https://www.biotadofuturo.com.br/o-fogo-como-fator-ecologico/. Acesso em 06/04/2026 às 08:02 h.

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