O Cerrado acaba de ganhar um destaque especial no mapa da biodiversidade brasileira. Pesquisadores confirmaram, pela primeira vez, a existência de bat caves — cavernas que abrigam colônias enormes de morcegos — nos estados de Tocantins e Goiás.
A descoberta surgiu a partir de inventários realizados pelo PAN Cavernas do Brasil, coordenado pelo ICMBio/Cecav, em parceria com a Bat Conservation International.
Onde estão essas cavernas?
No Tocantins, duas cavernas chamaram atenção:
- Boa Esperança: abriga cerca de 10 mil morcegos, entre eles Phyllostomus hastatus, Anoura geoffroyi e Pteronotus rubiginosus.
- Casa de Pedra: impressionou os pesquisadores com uma colônia de mais de 157 mil indivíduos, uma das maiores já registradas no país. Além das espécies mais comuns e aquelas da Caverna Boa Esperança, também foram encontrados exemplares de Natalus macrourus, que está ameaçada de extinção.
Em Goiás, a Gruta do Jacaré também entrou para a lista. Lá vivem mais de 20 mil morcegos, de pelo menos sete espécies diferentes. A caverna fica dentro da APA Nascentes do Rio Vermelho, o que reforça sua importância ambiental.
Entre as sete espécies importantes que foram encontradas nessa cavidade natural podem ser anotadas as seguintes, Pteronotus gymnonotus, Pteronotus personatus, Pteronotus rubiginosus, Lonchorhina aurita e Natalus macrourus.
Podem ser hot caves?
Segundo a bióloga Jennifer Barros, da Bat Conservation International, a Casa de Pedra e a Gruta do Jacaré têm características que podem classificá-las como hot caves — cavernas quentes, úmidas, com baixa circulação de ar, temperatura ambiente constante, uma única entrada e com altíssima densidade de morcegos. Esse tipo de ambiente é raríssimo: entre mais de 30 mil cavernas brasileiras, menos de 20 são consideradas hot caves. Um monitoramento térmico será iniciado para confirmar o status.
Até agora, grandes colônias desse tipo eram conhecidas apenas na Amazônia (Amapá e Pará, na Caatinga (Pernambuco,Ceará e Rio Grande do Norte) e em parte da Mata Atlântica (sergipe).
Por que isso importa?
Para o pesquisador Enrico Bernard, doutor em biologia da Universidade Federal de Lavras, essas descobertas mostram que o Cerrado ainda guarda muitos segredos. Encontrar colônias tão grandes — e com espécies ameaçadas — reforça a urgência de proteger esses ambientes.
E não é só uma questão de biodiversidade: os morcegos prestam serviços essenciais. Eles consomem centenas de toneladas de insetos por ano, ajudando no controle de pragas agrícolas e reduzindo a necessidade de defensivos. Ou seja, proteger as cavernas também beneficia quem vive e produz nas regiões próximas.
Morcegos no Brasil: diversidade e desafios
O país abriga 188 espécies de morcegos, quatro delas integrantes da lista nacional de espécies ameaçadas de extinção, Natalus macrourus, Furipterus horrens, Lonchophylla dekeyseri e Lonchophylla bokermanni.
As duas últimas também constam na Lista Vermelha global da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) – diz o ICMBIO.
Cerca de 45% utilizam cavernas como abrigo, o que mostra o quanto esses ambientes são fundamentais para sua sobrevivência e conservação.
Os morcegos ajudam a manter o equilíbrio dos ecossistemas — e fazem isso de graça, através de importantes serviços ecossistêmicos eliminando insetos, potenciais vetores de doenças para humanos e animais domésticos e eventuais pragas agrícolas.
O que vem pela frente?
Com os novos registros, o PAN Cavernas do Brasil deve intensificar o monitoramento das cavernas e trabalhar com comunidades locais, proprietários e órgãos ambientais para garantir a conservação desses ambientes únicos.
O plano reúne 44 ações voltadas à proteção do patrimônio espeleológico brasileiro e de 168 táxons ameaçados. O objetivo é prevenir, reduzir e mitigar os impactos e danos antrópicos sobre o patrimônio espeleológico brasileiro, preservando espécies e ambientes associados.
Imagem da Capa – Natalus macrourus e Pteronotus rubiginosus Gruta do Jacaré, na APA Nascentes do Rio Vermelho (GO) – Foto – Jennifer Barros – Divulgação







